PODER

Travesti é amarrada, agredida e humilhada na frente de guardas municipais em Teresina

Agressão foi testemunhada pelos guardas municipais e moradores, inclusive mulheres e crianças

A agressão á tarvesti Paola Amaral foi testemunhada até por crianças

A agressão á tarvesti Paola Amaral foi testemunhada até por crianças Foto: Reprodução/Instagram

A Associação Nacional dos Travesti e Transexuais publicou o vídeo no Instagram, nesta terça-feira (20), mostrando uma travesti, chamado de "Paola Amaral" pela Antra, sendo agredida, torturada e humilhada, depois amarada pelos pés e mãos e jogada dentro do porta-malas de um veículo  - um Siena Vermelho,  placas OUE-0727, de Teresina - no estacionamento de um conjunto habitacional em Teresina.

A barbárie foi testemunhada por várias pessoas, inclusive mulheres e crianças. Uma viatura da Guarda Municipal aparece pouco depois nas imagens. No primeiro momento do vídeo, os próprios guardas são filmados assistindo a tudo sem qualquer reação. A vítima é derrubada com uma rasteira e continua no chão, amarrada como se fosse um animal. Os guardas com as mãos na cintura e nada fazem para impedir que a humilhação à travesti continuasse. O vídeo encerra com o agressor desamarrando os nós nas pernas de Paola Amaral.
 

Foto: Reprodução/Instagram

Num outro momento, dois homens aparecem nas imagens. O dono do veículo, que chamado de Gabriel por uma moradora, abre o porta-malas e começa a bater na travesti com uma pedaço de madeira. O primeiro agressor passa a madeira para um outro homem, de calção branco, que desfere vários golpes nas mãos e nádegas da vítima. "Não grita", tu vai devolver o relógio, o botijão de gás, cadê?", repete, enquanto dá socos em Paola indefesa.

A selvageria contra a travesti viralizou. A Antra considerou as agressões  “tortura, violência e transfobia”. 

 


Paola Amaral, a Amaral, é uma travesti negra que está em alta vulnerabilidade social. E o que aconteceu hoje com ela em Teresina é a realidade de muitas travestis por esse país.
Ela amanhã estará novamente esquecida e invisibilizada até o dia em que não estiver mais entre nós.
Mesmo depois do que passou, está viva, foi solta e sendo acolhida pelos movimentos locais e pela rede de proteção à violência LGBTIfóbica de Teresina.
E amanhã, o que será dela ?
O racismo e a transfobia a colocaram nesse lugar de desespero a ponto de ter que negociar sua própria vida. Em troca de comida, de sua sobrevivência e quem sabe até de ter que cometer atos condenáveis sob a ótica de quem tem acessos por sua urgência e necessidade de subsistencia.
“Crimes por sobrevivência” são uma realidade em países onde há desigualdade social e pobreza. Precisamos erradicar a fome e a desigualdade, garantir emprego e renda, acesso ao bem estar social e a saúde de forma universal.
E por isso é importante perceber que para além da tortura física e a violência que vimos, existe uma estrutura que marginaliza corpos para justificar sua aniquilação.
Permitiremos que a tortura a que ela foi submetida seja naturalizada e aceita, justificada por algo que ela tenha feito?
Hoje ela sobreviveu.
Quem garante sua vida e segurança?
Precisamos de políticas públicas, investimento, educação, formação e ações de enfrentamento da precariedade em que corpos trans negros são colocados.
A transfobia é parte que estrutura a nossa sociedade cissexista e o racismo se soma para dar o golpe de misericórdia na abjeção. E como problemas coletivos, passados de geração para geração, devem ser pensadas ações urgentes e efetivas que sejam capazes de modificar a forma com que a sociedade nos vê, reconhecendo que grande parte dos desafios que enfrentamos são responsabilidade das pessoas cis.
Seus algozes, telespectadores passivos da barbarie e a GCM de Teresina precisam ser investigados pela omissão e prevaricação diante do ocorrido.
Vidas trans importam vivas.
Por ela. Por nós. Por todas!!!
Por @brunabenevidex

O outro lado

Guarda Municipal se posicionou através de nota 

A Guarda Civil Municipal de Teresina (GCM) esclarece que atendeu a uma ocorrência no residencial Parque Brasil III, zona Norte de Teresina, nesta segunda-feira (19). Ao chegar ao local, a equipe encontrou com uma travesti amarrada, suspeita de furtar apartamentos na região. Após ouvir os envolvidos, os membros da corporação que acompanhavam a ocorrência orientaram que o suposto agressor a desamarrasse.

Na sequência, a suspeita foi algemada e, juntamente, com o suposto agressor, foram conduzidos à Central de Flagrantes de Teresina para apuração do caso. Sobre um vídeo em que a travesti aparece sendo espancada no porta-malas de um carro, a GCM não presenciou o fato, uma vez que chegou ao local posteriormente.

Em hipótese alguma, a Guarda Civil Municipal de Teresina defende que seja feita Justiça com as próprias mãos. Por fim, o comando da GCM vai avaliar se houve falhas no procedimento.

 Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas também se manifestou 

A Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi), por meio da Gerência de Direitos Humanos (GDH), confirma que tomou conhecimento do ocorrido depois da postagem do vídeo no perfil do Instagram da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).  A Semcaspi informa que já solicitou a apuração dos fatos para a Guarda Civil Municipal de Teresina e está acompanhando juntamente com o Conselho Municipal dos Direitos LGBT, para que seja averiguado a situação e as irregularidades. A Semcaspi lamenta a situação e está a disposição para quaisquer novos esclarecimentos.

Fonte: Antra

Dê sua opinião: