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"Mestre" Manoel Paulo Nunes morre aos 96 anos em Teresina

A morte foi confirmada pelo presidente da Academia Piauiense de Letras, Zózimo Tavares

Escritor, professor, jornalista e acadêmico Manoel Paulo Nunes

Escritor, professor, jornalista e acadêmico Manoel Paulo Nunes Foto: APL

Faleceu na manhã desta  quinta-feira (14), aos 96 anos, o advogado, professor, conferencista, escritor, crítico literário e jornalista. Manoel Paulo Nunes. A morte foi confirmada pelo presidente da Academia Piauiense de Letras, jornalistas e escritor Zózimo Tavares -  Paulo Nunes ocupava a cadeira 38 da APL. A causa da morte e os locais do velório e sepultamento de Paulo Nunes não foram divulgados pela família.

Manoel Paulo Nunes nasceu em Regeneração, no Médio Parnaíba, em 1925. Bacharel em Direito, foi professor, conferencista, escritor, crítico literário e jornalista. Foi um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí e presidiu a APL de 1992 a 1995. Presidiu também o Conselho Estadual de Educação. 

“O falecimento do Mestre Paulo Nunes, líder de várias gerações, enluta APL e representa uma grande perda para o Piauí, que ele tanto elevou com inteligência e honradez. Ao tempo que expressa o seu profundo pesar à família e aos amigos, enaltece a sua extraordinária contribuição à educação e à cultura, atividades que abraçou desde a sua juventude, exercendo-as por toda a vida, de 96 anos, com devoção, brilho incomum e ética”, escreveu Zózimo Tavares.

NOTA DA REDAÇÃO: 
O portal PARLAMENTOPIAUÍ.COM manifesta profundo pesar e solidariedade aos familiares e amigos do Mestre Paulo Nunes, reproduzindo o texto publicado no Facebook pelo professor Cineas Santos, amigo de longas datas de Paulo Nunes.


CALA-SE UMA VOZ RECONHECÍVEL

Cineas Santos

Na manhã desta quinta-feira (14/10), saiu de cena M. Paulo Nunes, umas das figuras mais representativas da cultura piauiense. Como nenhum outro dos seus contemporâneos, Paulo Nunes encarnou, com perfeição, a figura do intelectual clássico: erudito, brilhante, formal, e atento aos rumores do mundo.  Não bastasse isso, gostava do que se convencionou  chamar de “vida literária”. 

Vaidoso, jactava-se, com razão, de sua prodigiosa memória. Era capaz de citar, de cor, estrofes inteiras de “Os Lusíadas”, ou fragmentos das obras de Eça de Queiroz, Proust, Machado de Assis e Euclides da Cunha, seus autores prediletos. O poeta Dobal dizia dele: “Teria sido e melhor adido cultural do Brasil em Portugal”.Integro e competente, Paulo exerceu, com dignidade, os mais diversos cargos públicos. 

À frente do Conselho Estadual de Cultura do Piauí por mais de 20 anos, realizou no CEC um trabalho extraordinário. Entre tantas outras coisas, dotou um Conselho de uma sede própria.Se me perguntassem que expressão traduziria bem Paulo Nunes, eu responderia sem pestanejar: um homem cordial. E emprego a palavra cordial nas duas acepções: a usada no dia a dia por todos nós e a outra empregada por Sérgio Buarque de Holanda.

Mas tudo que falei até aqui é sabido e consabido. Falarei então de uma faceta menos conhecida do mestre Paulo. O Paulo, amante da boa mesa, do bom vinho, das conversas picantes... 

Como não tenho comércio com a morte, guardarei do velho amigo lembranças alegres. Certa feita fui visitá-lo nos leitos dos hospitais de Teresina. Convalescia de uma complicada cirurgia de próstata. Encontrei-o visivelmente aborrecido. É que, pouco antes da minha chegada, outro amigo o visitara. Inconsequente e brincalhão, o visitante sugeriu ao convalescente que melhorar seria deixar o “desconforto inútil” do hospital para “descansar em paz, cercado do carinho dos seus”.  Colérico, Paulo o mandou às favas. Ele mesmo fez questão repetir tudo o que dissera com redobrada indignação.

Conhecedor do temperamento do enfermo, limitei-me a retirar do matulão uma garrafa de Corvo Salacuruti, um dos vinhos preferidos do mestre, levantei-a bem alto como se fosse um ostensório e, solenemente, bradei: levanta-te, bebe e anda! Paulo Nunes desatou uma daquelas famosas gargalhadas com o poder de acordar os anjos. Num instante, já conversava com tamanha animação, que parecia estar num almoço de confraternização e não num leito de hospital.

Quando eu queria fazê-lo feliz, recitava o soneto “Peregrinação”, de Bandeira, nunca me esquecendo de afirmar: o poeta fez para você. Paulo  dizia: “ Você me conhece, velho ancião” e sorria.

Certa feita, num rápido perfil que escrevi sobre ele, afirmei: M. Paulo Nunes aprecia boa literatura, café forte, vinho encorpado e mulher bonita. É um sábio, portanto. Reafirmo.

Fonte: Paulo Pincel

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